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quarta-feira, 9 de abril de 2025

O Fim do Período Colonial em Mato Grosso: Uma Nova Fase

 


Vila Bela em Declínio:



A Igreja Matriz Imponente, uma lembrança da Glória de Vila Bela e um Jovem que mantem as tradicções

No final do período colonial, Vila Bela, que era a capital de Mato Grosso, já não era mais um lugar vibrante. Muitos comerciantes se mudaram para Cuiabá, restando na antiga capital apenas a elite portuguesa, composta por governantes e funcionários públicos. A vida em Vila Bela não era fácil: as constantes enchentes, o clima úmido e as doenças tornavam a região pouco atraente. Até mesmo os militares não viam muito futuro em permanecer por ali, desmotivados pela tranquilidade da fronteira.

A Chegada de Oeynhausen: Um Governador Popular (1807-1819)

Em 1807, Cuiabá recebeu com grande festa um novo líder: João Carlos Augusto d’Oeynhausen de Gravemberg. Ele era o penúltimo Capitão General de Mato Grosso e, após uma breve passagem por Cuiabá, seguiu para Vila Bela. No entanto, um ano depois, retornou a Cuiabá e governou a capitania dali por quase onze anos.


Oeynhausen conquistou a simpatia da população de Mato Grosso, especialmente dos moradores de Cuiabá. Ele era um governante popular, mas essa popularidade teve um preço alto: quando deixou o governo, a capitania estava com uma dívida enorme.

Apesar disso, Oeynhausen realizou importantes ações:

  • Educação e Saúde: Ele propôs a criação de um curso superior de Anatomia, fundou a Santa Casa de Misericórdia (que funciona até hoje) e o Hospital de São João dos Lázaros.
  • Economia: Criou uma Companhia de Mineração para explorar os minerais da região de forma mais organizada e enviou metalúrgicos para aprender novas técnicas na Fábrica de Ferro de Sorocaba. Além disso, incentivou o cultivo de algodão.
  • Infraestrutura e Serviços: Fundou a Escola de Aprendizes de Marinheiros em Cuiabá e abriu a concorrência para melhorar o abastecimento de água na capital.

Em 1819, Oeynhausen deixou o governo de Mato Grosso para assumir o cargo de Capitão General de São Paulo. Mais tarde, recebeu o título de Marquês de Aracati e foi nomeado governador de Moçambique, na África, onde faleceu.

A Curta e Turbulenta Administração de Magessi (1819)

Francisco de Paula Magessi de Carvalho sucedeu Oeynhausen e chegou a Cuiabá em janeiro de 1819. Ele só conheceu Vila Bela um ano depois. Um marco importante de sua gestão foi a elevação de Cuiabá à categoria de cidade, através de uma lei de setembro de 1818. Magessi também solicitou ao Príncipe Regente D. João VI que Cuiabá se tornasse oficialmente a nova capital da Capitania.

Magessi iniciou a construção de um quartel, uma olaria e uma fábrica de pólvora. No entanto, ele herdou os cofres públicos completamente endividados, com fornecedores cobrando pagamentos atrasados e salários de militares e funcionários públicos pendentes.


Sem muitas opções, Magessi teve que tomar medidas impopulares para tentar equilibrar as contas. Isso desagradou muito a população, e ele acabou sendo deposto do cargo em pouco tempo.

Em resumo: O final do período colonial em Mato Grosso foi marcado pela decadência da antiga capital, Vila Bela, e pela ascensão de Cuiabá como centro econômico e político. A administração popular de Oeynhausen trouxe avanços, mas deixou uma grande dívida. Já o governo de Magessi, que tentou lidar com essa crise, acabou sendo marcado pela impopularidade e pela deposição, sinalizando as dificuldades e as mudanças que Mato Grosso enfrentava no final do domínio português.

terça-feira, 25 de março de 2025

AS FONTES HISTÓRICAS DO MATO GROSSO COLONIAL: Cientistas e Cronistas e o papel das Irmandades Religiosas

 Cientistas

Exploração e estudo: Mato Grosso atraiu cientistas durante o período colonial, motivados pela elite europeia. Esses homens realizaram estudos e investigações científicas na região.
  • Principais nomes:
    • Alexandre Rodrigues Ferreira: Explorou o norte do Brasil por dez anos (1783-1792), coletando amostras de plantas, madeira e animais, e descrevendo acidentes geográficos.

    • Álvaro da Fonseca Zuzarte: Chegou a Vila Bela em 1782 para auxiliar na demarcação do Tratado de Santo Ildefonso e assinou a Ata de Fundação de Casalvasco.

    • Antônio Pires da Silva Pontes: Também participou das demarcações do Tratado de Santo Ildefonso, assinou a ata de fundação de Casalvasco e fez levantamentos e observações astronômicas.

    • Joaquim José Ferreira: Chegou a Vila Bela em 1783 como militar, foi para Cuiabá e depois para o Forte de Coimbra.

    • Francisco José de Lacerda e Almeida

Cronistas

  • Registros históricos: Os cronistas deixaram os primeiros registros escritos sobre Mato Grosso. Eram bacharéis, letrados e administradores.
  • Principais nomes:
    • José Barbosa de Sá: Advogado em Cuiabá, deixou relatos da história cuiabana.

    • Filipe José Nogueira Coelho: Atuou em Vila Bela, ocupando cargos importantes, e escreveu "Memórias Cronológicas da Capitania de Mato Grosso".

    • João Antônio Cabral Camelo: Chegou a Cuiabá no início da ocupação e escreveu "Notícias Práticas das Minas de Cuiabá e dos Goiazes".

    • José Gonçalves da Fonseca: Chegou a Cuiabá em 1750 e escreveu sobre a navegação do Pará até Cuiabá.

    • Joaquim da Costa Siqueira: Vereador em Cuiabá, escreveu "Anais do Senado da Câmara de Cuiabá" e "Compêndio Histórico e Cronológico das Notícias de Cuiabá e Mato Grosso de 1778 a 1817".

Irmandades Religiosas

  • Papel social: As irmandades religiosas desempenharam um papel importante como ponto de encontro da sociedade colonial.
  • Organização: Reuniam grupos de colonos conforme a cor da pele e o poder aquisitivo.
  • Atuação: Em Vila Bela, a Irmandade de Santo Antônio, fundada em 1781, teve destaque. Outras irmandades surgiram, complementando e substituindo a Igreja em diversas tarefas que seriam do poder público.
As principais Irmandades nesse período em Mato Grosso foram:
  • Irmandade de São Benedito: Esta irmandade teve um papel particularmente significativo em Cuiabá, atuando na organização de festas religiosas e mantendo um importante espaço de sociabilidade.
  • Irmandade de Santo Antônio: Em Vila Bela da Santíssima Trindade, a Irmandade de Santo Antônio destacou-se por sua atuação na vida social da cidade, inclusive com a participação de figuras importantes como Luís de Albuquerque de Melo Pereira e Cáceres.
  • Outras Irmandades: Outras irmandades surgiram em diferentes localidades de Mato Grosso, cada uma com suas características e funções específicas, contribuindo para a organização da vida social e religiosa na região.
  • segunda-feira, 24 de março de 2025

    SOCIEDADE NEGRA NO MATO GROSSO COLONIAL: A Sociedade Negra e Quilombo do Piolho/Quaritere

     Escravidão e resistência:

    • Africanos escravizados foram trazidos para o Brasil para exploração de mão de obra.

    • A formação de quilombos foi uma forma crucial de resistência e busca por liberdade.

    Quilombo do Quariterê/Piolho e sua Rainha, Tereza de Benguela.


    Por razões óbvias, nenhum retrato foi feito de Teresa. Esta ilustração do século 19 foi adotada por organizações do movimento negro para representá-la




    Teresa de Benguela:
    • Líder do Quilombo do Quariterê, no Vale do Guaporé, Mato Grosso (atual).

    • Origem incerta: possível africana de Angola ou nascida no Brasil.

    • Comandou o quilombo com sucesso por duas décadas, resistindo ao governo escravista.
    Quilombo do Quariterê:
    • Fundado na década de 1740 por José Piolho, marido de Teresa de Benguela.

    • Inicialmente, operava com agricultura de subsistência e defesa básica.

    • Sob a liderança de Teresa, cresceu militar e economicamente, tornando-se uma ameaça ao sistema colonial.

    • Teresa de Benguela instituiu um sistema de governo, e organização que proporcionou a sobrevivencia do quilombo por decadas.

    Resistência Quilombola:


    • O quilombo representou uma forma de resistência negra à escravidão.

    • A força de Teresa de Benguela, representou um ponto de resistência muito forte, ao sistema escravocrata do Brasil colonial.

    • Sua liderança desafiou o domínio português na região.

    Nativos de Benguela e Angola, 1848. Benguela é um porto em Angola. Gravura da História Natural do Homem, de James Cowles Prichard, publicada por Hippolyte Bailliere / Crédito: Getty Images


    Por lá, viviam negros que escaparam do trabalho forçado nas minas de ouro e pedras preciosas recém-descobertas na área – uma outra corrida do ouro brasileira, menos lembrada que a de Minas. A população chegou a 300 pessoas, incluindo também índios e mestiços.

    Em sua primeira década, enquanto o governo não conhecia sua localização, o esquema tradicional foi suficiente para a comunidade resistir. “A Amazônia proporcionou condições para a existência dos quilombos, dificultando, inclusive, a retaliação por parte do sistema escravista”, explica o professor da Universidade Estadual do Maranhão e pesquisador da questão dos quilombos no Brasil Emmanuel de Almeida Farias Júnior.

    Nessa região de fronteira, ele lembra, os escravos fugidos podiam também se refugiar no lado espanhol. Por volta de 1750 José Piolho morreu. Teresa, a rainha viúva, assume seu lugar. Não só uma mudança de monarca como de regime de governo.

    PARLAMENTARISMO E COMÉRCIO

    O aumento da exploração mineral na região eleva o fluxo de negros escravizados – e fugitivos – na área, algo que chama a atenção da Coroa. O cerco português se intensifica. A fórmula que até então funcionava deixa de ser suficiente. Muitos fogem para os domínios espanhóis. Para quem fica, sérias mudanças.

    A principal fonte documental sobre como era a vida no Quariterê é o Anal de Vila Bela de 1770. De acordo com o documento, a rainha Teresa tinha sido escrava do capitão Timóteo Pereira Gomes e reinava soberana no quilombo com firmeza e rigor. Lá foi registrado:

    “A rainha Teresa governava esse quilombo a modo de Parlamento, tendo para o conselho uma casa destinada, para a qual, em dias assinalados de todas as semanas, entravam os deputados. Isso faziam, tanto que eram chamados
    pela rainha, que era a que presidia e que naquele negral Senado se assentava, e se executavam à risca, sem apelação nem agravo”.

    Pintura de 1824 mostrando negros lutando com passos de capoeira / Crédito: Wikimedia Commons


    Esse aspecto “democrático” vinha acompanhado de brutal disciplina. Uma necessidade para manter a comunidade a salvo, conforme afirma a doutora em antropologia e
    especialista em populações indígenas e quilombolas Edir Pina de Barros, no artigo Quilombos: Resistência Negra em Mato Grosso.

    Segundo a pesquisadora, Teresa aplicava duros castigos, como enforcamento, fratura das pernas e enterramento vivo para aqueles que desertassem, uma vez que isso colocaria em risco a segurança, a defesa e a própria existência do quilombo.

    Mas de pouco adiantaria disciplina militar sem armas. Para lutar em melhores condições com os portugueses, os quilombolas empreendiam emboscadas para o roubo de
    armas de viajantes e trocavam produtos fabricados na comunidade por mosquetes, espadas e pistolas com a população branca da região.

    A própria Teresa encabeçava algumas dessas missões comerciais, onde também vendia o excedente da produção quilombola por ouro ou pedras preciosas, eventualmente revertido em mais armas.

    “Os quilombos são entendidos erroneamente como espaços sociais isolados”, afirma Farias Junior. “Isso se deve, em grande parte, à legislação colonial. O Conselho Ultramarino dizia que o quilombo tinha um número mínimo de pessoas, estava isolado e com economia de subsistência, mas se verifica que os quilombos participavam de diferentes maneiras da economia regional.”

    Em seu artigo, Edir Pina afirma que a fartura do Quariterê contrastava com a escassez que reinava na época em Vila Bela e nas minas de Mato Grosso: “Tal abundância relacionava-se à forma de apropriação da terra (pelo trabalho), disponibilidade de mão de obra e, sobretudo, trabalho cooperativo e solidariedade social”.

    Nas roças, os produtos eram variados e, além dos voltados para a alimentação – complementada pela caça e pesca – eram cultivados fumo e algodão. O algodão como matéria prima para a tecelagem, outra atividade do quilombo. Tecidos eram uma importante moeda de troca por armas. Havia, ainda, duas tendas de ferreiro. “Através de relações mantidas com a sociedade ‘branca’, obtinham ferro, além de sal e outros artigos”, afirma Pina.

    Apesar de todos esses cuidados, o Quariterê seria conquistado em 1770. A posição do quilombo o tornava um alvo particularmente crucial para o governo português. A fuga de escravos e a formação de quilombos preocupavam os administradores coloniais de Vila Bela. O escape para os domínios espanhóis dificultava a recaptura e impedia a realização de expedições punitivas.

    Em 27 de junho partiu uma companhia especificamente montada para atacar o quilombo. No dia 22 chegaram, abriram fogo e a maioria dos quilombolas conseguiu fugir. A rainha Teresa ordenou que os quilombolas pegassem em armas para resistir, não só os mosquetes já citados, como arcos e flechas indígenas.

    “Alguns de seus súditos assim o fizeram, acudindo à voz e pegando em armas; mas não puderam usar delas pela força que viram contra si”, relata o Anal de Vila Bela, que conta ainda que, “seguindo os soldados as trilhas, foram abalroando em várias malocas daqueles inimigos, dos quais alguns se puseram em resistência, de forma que os soldados, em sua necessária defesa, se viram obrigados a fazerem-lhe tiro para salvarem as suas vidas.

    Sendo os encontros muitos, e muitas as resistências, não houve da nossa parte perigo algum de vida. Da parte daqueles infiéis morreram a tiro nove, dos quais foram apresentadas ao Senado 18 orelhas”.

    Além dos mortos, um total de 79 negros e 30 indígenas foram capturados e levados para Vila Bela. Lá, após sofrerem humilhação pública, foram marcados a ferro com a letra F (de “fujão”) e devolvidos para os seus proprietários, como determinava a lei de então. Entre os capturados estava Teresa.

    Ante a destruição do quilombo que liderava, a rainha capturada enlouqueceu. “Posta aí em prisão, à vista de todos aqueles a quem governou naquele reino, lhe diziam estes palavras injuriosas, de forma que, envergonhada, se pôs muda ou, para melhor dizer, amuada. Em poucos dias expirou de pasmo. Morta ela, se lhe cortou a cabeça e se pôs no meio da praça daquele quilombo, em um alto poste, onde ficou para memória e exemplo dos que a vissem”, descreve o documento colonial.

    Mas ainda não foi esse o fim do Quariterê. Os quilombolas que conseguiram fugir do ataque se escondendo se reorganizaram na mata, tornaram e reergueram seu assentamento. Somente em 1795 o quilombo foi finalmente eliminado, numa investida que contou com a participação de um negro forro capturado na ação de 25 anos antes. Teresa entraria para a História como uma das menos faladas mártires do período colonial.

    Tereza de Benguela uma rainha negra no pantanal






    AS SOCIEDADES INDIGENAS NO MATO GROSSO COLONIAL

    OS POVOS ORIGINÁRIOS  NO MATO GROSSO COLONIAL.

    Diversidade e modos de vida:

    • Os povos indígenas em Mato Grosso eram diversos, com suas próprias culturas e formas de organização.

    • Suas vidas giravam em torno da caça, pesca, coleta e agricultura.

    • Tinham uma visão de mundo coletiva, onde os recursos eram compartilhados.



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    Resistência à colonização:
    • Apesar da legislação que permitia a escravidão indígena em certos casos, muitos resistiram ativamente.

    • As formas de resistência incluíam ataques a expedições coloniais e o refúgio em áreas remotas.

    • Alguns indígenas se uniram a escravos fugidos em quilombos.



    Política colonial:

    • A Coroa Portuguesa implementou políticas para subjugar os indígenas, buscando transformá-los em súditos.

    • A coroa portuguesa inclusive chegou a separar quais tribos deveriam ser poupadas e quais deveriam ser extintas.


    DECLARAÇÃO UNIVERSAL DOS DIREITOS HUMANOS - 1948

      A  Declaração Universal dos Direitos Humanos  ( DUDH ) é um documento base não jurídico que delineia a proteção universal dos  direitos hu...