Escravidão e resistência:
- Africanos escravizados foram trazidos para o Brasil para exploração de mão de obra.
- A formação de quilombos foi uma forma crucial de resistência e busca por liberdade.
Por razões óbvias, nenhum retrato foi feito de Teresa. Esta ilustração do século 19 foi adotada por organizações do movimento negro para representá-la
- Líder do Quilombo do Quariterê, no Vale do Guaporé, Mato Grosso (atual).
- Origem incerta: possível africana de Angola ou nascida no Brasil.
- Comandou o quilombo com sucesso por duas décadas, resistindo ao governo escravista.
- Fundado na década de 1740 por José Piolho, marido de Teresa de Benguela.
- Inicialmente, operava com agricultura de subsistência e defesa básica.
- Sob a liderança de Teresa, cresceu militar e economicamente, tornando-se uma ameaça ao sistema colonial.
- Teresa de Benguela instituiu um sistema de governo, e organização que proporcionou a sobrevivencia do quilombo por decadas.
- O quilombo representou uma forma de resistência negra à escravidão.
- A força de Teresa de Benguela, representou um ponto de resistência muito forte, ao sistema escravocrata do Brasil colonial.
- Sua liderança desafiou o domínio português na região.
Nativos de Benguela e Angola, 1848. Benguela é um porto em Angola. Gravura da História Natural do Homem, de James Cowles Prichard, publicada por Hippolyte Bailliere / Crédito: Getty Images
Por lá, viviam negros que escaparam do trabalho forçado nas minas de ouro e pedras preciosas recém-descobertas na área – uma outra corrida do ouro brasileira, menos lembrada que a de Minas. A população chegou a 300 pessoas, incluindo também índios e mestiços.
Em sua primeira década, enquanto o governo não conhecia sua localização, o esquema tradicional foi suficiente para a comunidade resistir. “A Amazônia proporcionou condições para a existência dos quilombos, dificultando, inclusive, a retaliação por parte do sistema escravista”, explica o professor da Universidade Estadual do Maranhão e pesquisador da questão dos quilombos no Brasil Emmanuel de Almeida Farias Júnior.
Nessa região de fronteira, ele lembra, os escravos fugidos podiam também se refugiar no lado espanhol. Por volta de 1750 José Piolho morreu. Teresa, a rainha viúva, assume seu lugar. Não só uma mudança de monarca como de regime de governo.
PARLAMENTARISMO E COMÉRCIO
O aumento da exploração mineral na região eleva o fluxo de negros escravizados – e fugitivos – na área, algo que chama a atenção da Coroa. O cerco português se intensifica. A fórmula que até então funcionava deixa de ser suficiente. Muitos fogem para os domínios espanhóis. Para quem fica, sérias mudanças.
A principal fonte documental sobre como era a vida no Quariterê é o Anal de Vila Bela de 1770. De acordo com o documento, a rainha Teresa tinha sido escrava do capitão Timóteo Pereira Gomes e reinava soberana no quilombo com firmeza e rigor. Lá foi registrado:
Segundo a pesquisadora, Teresa aplicava duros castigos, como enforcamento, fratura das pernas e enterramento vivo para aqueles que desertassem, uma vez que isso colocaria em risco a segurança, a defesa e a própria existência do quilombo.
A própria Teresa encabeçava algumas dessas missões comerciais, onde também vendia o excedente da produção quilombola por ouro ou pedras preciosas, eventualmente revertido em mais armas.
“Os quilombos são entendidos erroneamente como espaços sociais isolados”, afirma Farias Junior. “Isso se deve, em grande parte, à legislação colonial. O Conselho Ultramarino dizia que o quilombo tinha um número mínimo de pessoas, estava isolado e com economia de subsistência, mas se verifica que os quilombos participavam de diferentes maneiras da economia regional.”
Em seu artigo, Edir Pina afirma que a fartura do Quariterê contrastava com a escassez que reinava na época em Vila Bela e nas minas de Mato Grosso: “Tal abundância relacionava-se à forma de apropriação da terra (pelo trabalho), disponibilidade de mão de obra e, sobretudo, trabalho cooperativo e solidariedade social”.
Nas roças, os produtos eram variados e, além dos voltados para a alimentação – complementada pela caça e pesca – eram cultivados fumo e algodão. O algodão como matéria prima para a tecelagem, outra atividade do quilombo. Tecidos eram uma importante moeda de troca por armas. Havia, ainda, duas tendas de ferreiro. “Através de relações mantidas com a sociedade ‘branca’, obtinham ferro, além de sal e outros artigos”, afirma Pina.
Apesar de todos esses cuidados, o Quariterê seria conquistado em 1770. A posição do quilombo o tornava um alvo particularmente crucial para o governo português. A fuga de escravos e a formação de quilombos preocupavam os administradores coloniais de Vila Bela. O escape para os domínios espanhóis dificultava a recaptura e impedia a realização de expedições punitivas.
Em 27 de junho partiu uma companhia especificamente montada para atacar o quilombo. No dia 22 chegaram, abriram fogo e a maioria dos quilombolas conseguiu fugir. A rainha Teresa ordenou que os quilombolas pegassem em armas para resistir, não só os mosquetes já citados, como arcos e flechas indígenas.
“Alguns de seus súditos assim o fizeram, acudindo à voz e pegando em armas; mas não puderam usar delas pela força que viram contra si”, relata o Anal de Vila Bela, que conta ainda que, “seguindo os soldados as trilhas, foram abalroando em várias malocas daqueles inimigos, dos quais alguns se puseram em resistência, de forma que os soldados, em sua necessária defesa, se viram obrigados a fazerem-lhe tiro para salvarem as suas vidas.
Sendo os encontros muitos, e muitas as resistências, não houve da nossa parte perigo algum de vida. Da parte daqueles infiéis morreram a tiro nove, dos quais foram apresentadas ao Senado 18 orelhas”.
Além dos mortos, um total de 79 negros e 30 indígenas foram capturados e levados para Vila Bela. Lá, após sofrerem humilhação pública, foram marcados a ferro com a letra F (de “fujão”) e devolvidos para os seus proprietários, como determinava a lei de então. Entre os capturados estava Teresa.
Ante a destruição do quilombo que liderava, a rainha capturada enlouqueceu. “Posta aí em prisão, à vista de todos aqueles a quem governou naquele reino, lhe diziam estes palavras injuriosas, de forma que, envergonhada, se pôs muda ou, para melhor dizer, amuada. Em poucos dias expirou de pasmo. Morta ela, se lhe cortou a cabeça e se pôs no meio da praça daquele quilombo, em um alto poste, onde ficou para memória e exemplo dos que a vissem”, descreve o documento colonial.
Mas ainda não foi esse o fim do Quariterê. Os quilombolas que conseguiram fugir do ataque se escondendo se reorganizaram na mata, tornaram e reergueram seu assentamento. Somente em 1795 o quilombo foi finalmente eliminado, numa investida que contou com a participação de um negro forro capturado na ação de 25 anos antes. Teresa entraria para a História como uma das menos faladas mártires do período colonial.
Tereza de Benguela uma rainha negra no pantanal




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